“quase ha(ra)i k(i)a(r)i”

a mãe havia sido dada como resgate. o brasil é um país lindo. ill pays dü cafèe, dizia-lhe seu primeiro comprador, agora vendedor, li numa revista. no início do século vários dos nossos foram morar em colônias de lá porque aboliram a escravatura.

: aboliram mesmo? não é o que parece, ou então, devia ser abolida aqui também.

pouco sabia a menina do destino dela. partiu naquele momento em que seu país fazia-os engolir a seco a idéia de pátria, logo após recuperar-se da primeira grande guerra.

agora, à hora do abandono, era a década de 30. o japão adotara uma política internacional agressiva de objetivos expansionistas, assim como o homem. visava também à china. e muito ópio.

chamava a filha de cho cho, que era também como gostava de se olhar. se voltar. tinha então uns sete anos a lagartinha. mais tarde, só um pouco, entregaram-na a um que lhe chamava hu-dié

: mas não vivem um só dia, após conhecerem tais flores?

não seja ingrata. meu povo é destruído, e nem sun tzu os salvaria, pra que possamos voar, hu-dié.

*

só aos vinte e dois anos teve notícias. estava preocupada com a filha que, oxalá, não morava mais na velha casa destruída pelo bombardeio. a guerra ainda durou quatro meses, e foi quando da rendição do japão que também ela sucumbiu

: deu ao velho chinês sua última dose e partiu com um soldado estadunidense. dois desertores. loucos (par)a passear pela fétida baía de guanabara.

*

aqui me chamam china. assim como os libaneses e sírios e árabes chamados turcos, não gosto da confusão. não por crise de identidade. lembro daquele velho sórdido a quem você me convenceu matar. tudo bem, sem rancores, ressentimentos, culpas. tudo bem, mas o dinheiro acabou.

não se acham por aqui as flores alucinógenas, mas dizem que essa erva que se alastra pelas ruas e becos e morros também foi aqui introduzida pra desmoralizar e desmobilizar o povo, apesar de trazida por escravos, a diamba. os estudantes, que são considerados os mais perigosos, adoram. ficam verborrágicos. se for verdade, quem as introduziu deve adorar também. dá preguiça e sono. vejo sempre uns milicos, mas nem de longe parecido com o poderio bélico de nossas nações de expatriados.

você, caso não sentisse o estranhamento, a estrangeiridade em tudo, não se sentiria nada deslocado. predomina também aqui o american way of life. são mais americanos que você. usam calça lee, camisas com estampas de mickey ou “i love ny”. tomam coca-cola, comem cheeseburger. ouvem sua música. chega a ser engraçado, soube que exportam suco de laranja.

até hoje me pergunto o que foi feito daqueles dias. não queríamos crer no amor, mas com que intensidade o vivíamos! talvez eu cresse… até os dias tão longos, intermináveis, que fiquei a te esperar na central do brasil.

trabalho em teatros agora. atriz. até chefes de estado vêm me ver. pouco importa. quando as cortinas se fecham e a ribalta é escura, não se distingue os homens pelo poder que têm ou representam. todos o são. não tanto quanto meus conterrâneos, paternalistas em demasia, mas são. são homens.

nós, as atrizes, representamos cumes, ápices, cimos e até suores. somos uma trupe. quase todas francesas, elas me chamam papillon. japonesa só eu. dizem que sou rasa e aí encontram explicação pra piada machista e xenofóbica.

minha mãe morreu pouco depois da minha chegada. antes que a conhecesse. um tal bacilo de koch. a cidade que morava é muito quente e não ajudou. nunca achei que ela pudesse me salvar mesmo.

vou colocar essa carta numa garrafa de vinho barato que tomei ontem e me fez mal. acordei vomitando. a privada está quebrada e cheia do sólido, negro e azedo vinho. vou jogá-la no mar (vi isso num filme romântico). pode ser um estímulo pra eu ir pro litoral. mas do jeito que a coisa vai, acho mais provável que alguém o faça por mim. como um último pedido concedido por caridade. pena. quem sabe você, onde quer que esteja, a encontre um dia.

descobri há pouco algo que parece neve e que derrete o sangue. faz meus espectadores, e até espectadoras, parecem deuses. você. aí eu que sou a poderosa.

parece que as paredes vão me engolir. não encontrei a liberdade em são paulo. queria me desintegrar com a neve quente, no entanto, vomito, tremo, tenho febres. faz frio e não posso voar. mulan é invenção dos teus. haraquiri dos meus. “la vida és dolor”, diz o colombiano que me chama mariposa. ele tem razão. daqui a pouco, aparece.  será então a dose mais forte e violenta. não tenho dinheiro, mas ele aceita em serviço

: rasa e pequenina assim… parece até que estupro a virgem maria.

aí sim, finalmente borboleta. um dia e fim.

“PARA GOSTAR DE LER”

I
Se o dinheiro está curto
Até pra comprar cueca
E nem de longe imagino
Visitar um sítio asteca,
Posso em sonhos viajar
Nos livros que encontrar
Dentro da biblioteca.

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II
Pego um avião moderno
E saio rasgando o céu,
Entre cortinas de nuvens
Que mais se parecem um véu
Da noiva da esperança,
E vou me parar na França
Conhecendo a Torre Eiffel.

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III
Num banquinho de madeira,
Sem tirar os pés da terra,
Nas letras do livro-sonho,
Que tanta grandeza encerra,
Com algumas páginas lidas
Vejo todas as batidas
Do Big Bang da Inglaterra.

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IV
Num distante pé de serra
Alguém ouvirá meu grito
A saudar a Palestina,
Seus pastores com cabritos,
Em meio a tanta incerteza,
E mais à frente as belezas
Das pirâmides do Egito.

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V
Viajo também nos braços
Do romanceiro de cá,
Das lendas e das estórias
Do povo do meu lugar,
Vou dormir com um poema
E me acordo com Iracema
De José de Alencar.

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VI
No Rio Grande do Norte,
Prosseguindo meu estudo,
Vou conhecendo a Iara
De belo corpo desnudo.
Pro sonho ficar mais quente,
Ela eu ganhei de presente
Do grande Câmara Cascudo.

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VII
Na vizinha Paraíba,
Vi João Grilo na subida;
Fui ao céu e ao inferno,
Que era um beco sem saída
Por Ariano criado
No enredo bem bolado
Auto da Compadecida.

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VIII
Nas páginas paraibanas,
Vi quanto Augusto sofreu
Ao escrever Versos Íntimos
No eterno Livro do EU;
Apurando o meu empenho,
De Zé Lins vi o Engenho
Cujo fogo já morreu.

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IX
Dancei frevo em Pernambuco
Em terreiro, praça e sala,
Maracatu, caboclinho,
Fiquei em ponto de bala,
Gilberto Freire, gentil,
Me apresentou o Brasil
Em Casa Grande e Senzala.

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X
Pelo século 19
Me enfurnei no sertão:
Conheci Maria Moura,
A valentia e a paixão
Que dobravam coronel.
Quem me contou foi Rachel
Na porteira do mourão.

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XI
Com Aluizio Azevedo,
Numa Casa de Pensão,
Vi mulato de Cortiço
(Nossa miscigenação),
Andei com Gonçalves Dias,
Indianista da poesia,
Nas terras do Maranhão.

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XII
Fui parar nas Alagoas,
Terra de Graciliano,
Onde a cachorra baleia
Foi atrás de Fabiano,
Vidas Secas de lamentos,
Batalhas e sofrimentos,
Sem rumo, esperança e plano.

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XIII
Vi o Sargento Getúlio
Tomado de valentia,
De posse de uma lazarina,
Caminhar de noite e dia,
Conduzindo sem clemência
Um preso na diligência
Entre Sergipe e Bahia.

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XIV
Quem contou foi João Ubaldo,
E o fez com maestria,
Bem depois de Jorge Amado,
Escritor-mor da Bahia,
Que soube falar de amores,
Crenças, culturas e dores
Com cheiros de maresia.

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XV
Vejo a Tenda dos Milagres,
Em noite de lua cheia;
Gabriela cheira a cravo
No fogo que incendeia;
Na Cidade Baixa a farra,
Molecagem e algazarra
Dos Capitães da Areia.

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XVI
O Nordeste é muito rico
Em termos de criação:
Aqui servimos banquete
De puríssima inspiração.
Só porque nunca fui jeca,
Estou numa biblioteca
Com o mundo em minhas mãos.

(MIGUEZIM DE PRINCESA)

“Um Pessoa”

Quantidade
nem sequer soma um Pessoa
cria apenas raridade
de uma asa
para um bicho que não voa.

(André Lima)

“Ora Pílulas”

uma flor contrária
uma dor de ovário
pétala uterina

tem a cor vermelha
é própria a centelha
das mulheres cíclicas

muita vez transborda
passa pelas bordas
do nosso apetite

quando se detém
o susto é imenso
dura nove meses

(enorme barriga)

*

(Líria Porto)

“de esquina”

prefere os quartos em pensões. são bem mais baratos, e aí não há razão de ser a boca miúda. a escória. e surge uma espécie de solidariedade entre iguais. os marginalizados.

conquanto não a tratem como coitadinha corre tudo bem. não é alguém que foi levada pelas circunstâncias. escolheu sem ajuda o seu destino. gostava daquilo, sua vida sem controle ou monopólio de seus sentimentos ou sexo. e é bom o sexo com estranhos. algo próximo ao amor. a festa de seu corpo.

quando criança sonhava um mesmo sonho que ainda persiste, apesar de serem diferentes as personagens

: era apenas carne&osso. escorregava da nuca ao pescoço e rouca verbalizava a dor de amar. evaporava então em nuvem a guria d’água. ela era a chuva. choro.

só o ofício pode não a mantém em náusea. é capaz de amar, e ama, centenas ou milhares de homens e mulheres. porque então não é posta em xeque em posição subalterna ou opressora, só é a mulher. que não é deles e elas não são dela. que se se envolver não suporta o ciúme, a posse, o escravismo das relações-padrão. os sentimentos que não a permitem gostar de si.

se ama quando amam seu corpo em glória. a idéia que fazem dela. a estranheza, o paradoxo entre calor e frieza desse amor que só resiste por ser breve, honesto. de esquina.

(nina rizzi)

“Amor nas bocas do luxo e do lixo”

Na boca do luxo os seus cabelos

São como plumas e paetês.
Seu cheiro é como perfume francês.
O teu olhar tem o brilho das esmeraldas
[Ou ametistas].
Seus olhos são pérolas.
Sua saliva, vinho português;
Teus seios, travesseiros de pena

de ganso;
Seu corpo é um cobertor térmico;
Sua voz, o coro de canto gregoriano;
Teu suor, azeite de oliva refinado;
Sua carne, salmão do mais delicioso;
Seus pêlos, lãs;
Seu abraço, uma casa de veraneio em Mônaco;
Seu calor, lareira;
O ritmo do seu corpo orquestra

[Sinfônica].
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Na boca do lixo os seus cabelos
São palhas de capim secas confortáveis

[Cama de gato].
Seu cheiro, essência de cachoeira;
O teu olhar, bolas de gude;
Seus olhos, uvas frescas;
Sua saliva, água mineral;
Teus seios, travesseiros fartos;
Seu corpo é uma cama;
Sua voz, um canto de blues;
Teu suor, um banho de chuva

[No verão].
Sua carne um banquete.

Seus pêlos algodão.
Seu abraço um vento roda-moinho.
Seu calor fogo no carvão.
O ritmo do seu corpo uma dança tribal.

(Paulo Roberto)

“Poema”

Minha poesia é noite

contida nas cavernas

do meu coração

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Minha poesia é sangue

vertido das entranhas

do meu ventre fértil

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Minha poesia é morte

escondida entre os sorrisos

desta solidão

(Josie Mello)